sábado, janeiro 13, 2007

TERRORISMO *



A Al-Qaeda é o rosto do terrorismo global, um terrorismo violento, errático nas vitimas que provoca e racional nos alvos e objectivos que pretende alcançar. No plano ideológico, como movimento, tem que ser analisado na óptica da ‘ideologia manifesta’ e na óptica da ‘ideologia latente’.

A ‘ideologia manifesta’, expressa-se no fundamentalismo religioso, no regresso do Islão às suas origens, à pureza dos seus antepassados (salaf). Na óptica da ‘ideologia latente’, o radicalismo, o Islão político de retorno ao califado como modelo social e político congregador e aglutinador da comunidade dos crentes (a umma).

É nesta dicotomia que se cruza o modelo realista actual de cariz fundamentalista como factor mobilizador, e o modelo radical utópico idealizado por uma estrutura de topo. Utópico porque à “semelhança de marxistas e dos neoliberais, os islamitas radicais vêem a história como um mundo novo” 1. Nesse novo mundo “o poder e o conflito desaparecem. Esta é uma invenção da imaginação revolucionária, e não uma receita para uma sociedade moderna viável; mas neste aspecto o novo mundo imaginado pela Al-Qaeda em nada difere das fantasias planeadas por Marx e Bakunin, por Lenine e Mao, e pelos evangelistas neoliberais, que tão recentemente anunciaram o fim da história. E tal como aconteceu com esses movimentos ocidentais modernos, a Al-Qaeda encalhará nas imutáveis necessidades humanas.” 2

É nesta utopia que se vive o sonho da restauração do Califado Islâmico. O General Loureiro dos Santos, no seu livro “O Império debaixo de fogo” transcreve uma tradução sobre “O futuro do terrorismo – o que a Al-Qaeda realmente quer”, publicado no Spiegel online a 12 de Agosto de 2005. Os objectivos estratégicos (intermédios) descritos em sete fases prevêm o estabelecimento final do califato em 2020:

“A primeira fase, conhecida como “o despertar”, já foi percorrida, e durou de 2000 a 2003, mais precisamente, dos ataques terroristas de Setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington, à queda de Bagdade em 2003. A finalidade dos atentados de 11 de Setembro foi provocar os Estados Unidos a entrarem em guerra no mundo islâmico, e então, provocar o despertar dos muçulmanos. “Segundo os estrategistas e ideólogos da Al-Qaeda, a primeira fase teve imenso sucesso”, escreve Hussein. “Aberto o teatro de operações, os americanos e os seus aliados tornaram-se num objectivo próximo e fácil”. Também se afirma que a rede terrorista está satisfeita pelo facto de a sua mensagem estar a ser ouvida por todo o lado.

A segunda fase, “abrindo os olhos” é, de acordo com a definição de Hussein, período em que nos encontramos,que durará até 2006. Diz Hussein que os terroristas esperam que a conspiração ocidental fique ciente da “comunidade islâmica”. Hussein acredita que esta é a fase durante a qual a Al-Qaeda pretende que a organização evolua para movimento. A rede está a investir no recrutamento de jovens, ao longo deste período. O Iraque deverá tornar-se no centro de todas as operações globais, criando ai um “exército” e estabelecendo bases noutros Estados árabes.

A terceira fase é descrita como “progredindo e consolindando”, e deverá durar de 2007 a 2010. “O foco será a Síria”, profetisa Hussein com base no que as suas fontes lhe disseram. Os quadros combatentes já estão supostamente preparados e alguns encontram-se no Iraque. São previstos atentados na Turquia e, com maior intensidade em Israel. Os mentores da Al-Qaeda aguardam que os ataques em Israel os ajudem a que o grupo terrorista venha a ser uma organização conhecida. O autor também crê que os países vizinhos do Iraque, como a Jordânia, ficaram em perigo.

A quarta fase, entre 2010 e 2013, será a altura, segundo Hussein, em que a Al-Qaeda conseguirá o colapso dos odiados governos árabes. A estimativa é que, neste período, “a humilhante perda de poder dos regimes conduzirá ao aumento da força da Al-Qaeda”. Ao mesmo tempo, devem ser desferidos ataques contra os produtores de petróleo e atingida a economia norte-americana, usando o ciberterrorismo.

A quinta fase será o período durante o qual pode ser declarado o Estado Islâmico, ou Califado. O plano é que, por esta altura, entre 2013 e 2016, a influência ocidental no mundo islâmico seja tão reduzida e Israel tenha enfraquecido de tal modo, que a resistência não é de temer. A Al-Qaeda espera que, nesta fase, esteja com capacidade de estar prestes a estabelecer uma nova ordem internacional.

A sexta fase, para Hussein, ocorrerá de 2016 em diante, e no seu decurso haverá um período de “confrontação total”. Logo que o califado tenha sido declarado, o “exército islâmico” instigará a “luta entre os crentes e os não crentes ”3, que tem sido frequentemente prevista por Ossama Bin Laden.

A sétima fase, como etapa final de todo o processo, é descrita como “vitória definitiva”. Hussein escreve que, aos olhos dos terroristas, uma vez que o resto do mundo se encontrará tão enfraquecido, por acção dos “mil e quinhentos milhões de muçulmanos”, o califado prevalecerá, indubitavelmente. Esta fase deverá estar completa até 2020, embora a guerra não deva durar mais do que dois anos.” 4

É na realidade da ‘ideologia manifesta’, que se expressa a ameaça para o ocidente. É naquilo que Jason Burke define como a 3ª fase da Al-Qaeda, “a metodologia, a máxima, o preceito, a norma, a maneira de ver o fim. O núcleo desagregou-se, a ‘rede das redes’ rompeu-se. Para ser membro da Al-Qaeda basta afirma-lo” 5. Porque pertencer à Al-Qaeda “significa não pertencer a nenhum território e não reconhecer a autoridade de nenhuma lei criada pelo homem” 6

Na prática significa que a estrutura superior deixou de ter capacidade de comando e controlo sobre a organização. Se algo existe em termos de direcção está ”a exercer-se à distância, através de éditos religiosos gerais e da propagação de uma doutrina de ódio e violência, embora usufruindo da celeridade da internet e do telemóvel.” 7

A Al-Qaeda passou a uma lógica de ‘holding’, actuando os seus elementos de base numa lógica de ‘procuração’ ou de ‘frainchising’.

A grande vitória de Bin Laden, acidental ou não, foi a forma como a mensagem se espalhou. Esta nova Al-Qaeda não necessita de uma estrutura de comando centralizada, ela gere-se por si. De tal forma que o terrorismo de matriz islâmica passou a ser um fenómeno endógeno do ocidente.
É na exclusão social e na inadaptação gradual dos costumes ocidentais que o terrorismo islâmico tem recrutado os seus mártires. Na mesquita ou na madrassa, na prisão, o futuro mártir encontra compreensão e apoio, um sentido de vida e um sentimento de pertença grupal. É no grupo que o futuro mártir se vai sentir valorizado, vai aprender a defender os valores transmitidos de pertença, reagir com indignação e contra-atacar quando se sente ameaçado. Deste modo, na sua lógica e na lógica do grupo, as suas acções são plenamente justificadas.

É nas franjas “radicalizadas das comunidades muçulmanas” do ocidente que a Al-Qaeda se alimenta, e a dúvida reside em saber se neste “cavalo de troia" de milhões de muçulmanos a viver no ocidente, poderá vir a minar este mesmo ocidente a partir do seu interior. 8

Ossama Bin Laden lançou a semente.

* Este artigo foi retirado do Capítulo III – Um mundo em mudança (As Ameaças) do ensaio “Os Desafios da Inteligência num Mundo Globalizado” no âmbito da cadeira de “Globalização e Segurança” da pós-graduação em “Informações e Segurança” no ISCSP.
O Autor do Ensaio
1 Gray, John, Al-Qaeda e o significado de ser moderno, Relógio D’Água, Julho 2006, pp 18.
2 Ibidem.
3 Entre o dar-al-islam e o dar-al-Harb. A visão dicotomista do mundo, a luta entre o bem e o mal, o paraíso e o inferno, Deus e Satanás, fíel e infíel.
4 Santos, General Loureiro dos, Império debaixo de fogo, Europa-América, 2006, pp. 65 e 66.
5 Burke, Jason, Al-Qaeda a história do islamismo radical, Queizal editores, Lisboa 2004, pp.293
6 Scruton, Roger, O Ocidente e o Resto, Guerra e Paz, 2006, pp. 115
7 Pereira, Rui (e outros), As teias do terror – Novas ameaças globais, esquilo, 2006, pp. 58.
8 Pinto, Maria do Céu (Coordenação), O Islão na Europa, Prefácio, 2006, pp. 11.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Boas Cambada

Hoje decidi assinar.

9:46 da tarde  

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