Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Escolhas - por António Vitorino -



Escolhas
António
Vitorino
Jurista

Desde há cerca de ano e meio que se tem vindo a dizer que a superação do impasse em que se encontra o Tratado Constitucional da União Europeia depende, em larga medida, das eleições francesas e holandesas.Ontem mesmo, nas eleições parlamentares holandesas, os resultados deram a vitória aos cristãos-democratas do primeiro-ministro Balkenende, bem como um reforço da posição dos partidos que, à esquerda ou à direita, se situam em posições mais eurocépticas.
Os resultados destas eleições não são uma surpresa, na medida em que quer o próprio partido do primeiro-ministro cessante quer o conjunto da sociedade holandesa têm registado um movimento de afastamento das suas posições tradicionais em matéria europeia.A surpresa destas eleições terá sido, sobretudo, a queda do principal partido da oposição - os Trabalhistas -, bem como de um dos partidos da coligação - os Liberais -, que fez da sua visão restritiva das políticas de imigração e asilo um ponto central da sua plataforma eleitoral.
No rescaldo destas eleições, torna-se claro que não só o Tratado Constitucional mas, de uma maneira mais geral, as probabilidades de uma reforma dos Tratados actuais, a partir de uma nova base, saíram mais comprometidos do voto dos holandeses nesta quinta-feira.Agora as atenções voltam-se para a eleição presidencial francesa, em Maio do ano que vem.Nestas, avulta a decisão do Partido Socialista francês de escolher, pela expressiva maioria de 60% dos votantes, a candidatura de Ségolène Royal.
Do muito que se tem escrito sobre a agora candidata socialista ressaltam dois traços fortes: por um lado, sobre questões centrais da vida política, incluindo os temas europeus, o pensamento de Ségolène Royal permanece um mistério ou, no mínimo, uma nebulosa; mas, por outro lado, não se pode deixar de lhe reconhecer uma grande habilidade e um instinto profundo de bom senso, ao conduzir uma campanha vitoriosa contra a experimentada nomenclatura do Partido Socialista Francês.A escolha de Ségolène tem um significado simbólico: pela primeira vez em França, uma mulher tem fortes probabilidades de assumir a Chefia do Estado.
Num país como a França, esta não é uma questão em si mesmo menor!Mas, simultaneamente, o apoio dos socialistas a uma candidata que aparece como outsider em relação à nomenclatura do seu próprio partido corresponde a um fortíssimo sinal de renovação da classe política, que as sondagens identificam como sendo uma preocupação central do eleitorado francês nas próximas escolhas eleitorais.
O mais que provável adversário de Ségolène, o actual ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, compreendeu igualmente esta onda de fundo do eleitorado e, também ele, pretende definir-se e apresentar-se como factor de renovação do pessoal político da direita.Neste intento, quer um quer outro dos candidatos beneficia da hostilidade manifestada pelos dois líderes históricos das respectivas áreas políticas, o ex-primeiro-ministro Leonel Jospin, à esquerda, e o actual Presidente da República, Jacques Chirac, à direita.
Mas a tarefa de Sarkozy parece mais difícil, na medida em que não só exerce funções no actual Governo como lidera o partido que apoia o Presidente Chirac, malgrado as conhecidas dissensões pessoais entre os dois homens políticos.Os próximos meses serão muito interessantes para serem seguidos com atenção.
O actual ministro do Interior radicalizou o seu discurso, na sequência dos acontecimentos que ocorreram nos arredores das grandes cidades francesas no ano passado, assumindo uma agenda que reforçou a sua popularidade junto dos sectores mais à direita, mas agora terá de se dedicar sobretudo a seduzir o centro político.E é aí que terá de se defrontar com uma candidata socialista caracterizada pelo realismo, por um discurso menos centrado na "grande política" e mais virado para a gestão das expectativas e dos sentimentos do quotidiano dos cidadãos franceses. Quem ganhar o centro político com uma mensagem, um perfil e um programa de renovação da classe política e de modernização moderada da França será o próximo ocupante do Palácio do Eliseu!Esta escolha será decisiva, não apenas para a França mas também para a Europa no seu conjunto. Mas tal escolha também terá distintas implicações para Portugal. Tema a que voltaremos mais adiante.

Cfr. com vantagem o Macroscópio e o Tropicalidades

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

Blogotinha
Justiça
Macroscópio
marketeer500
O Jumento
Sobre o tempo que passa
Tomar Partido
Globalia
Tropicalidades
Trinos de Dissidência
Jornais/Revistas/TVs Nacionais
Strategic Foresight Group
Globalisation Institute
The Trilateral Commission
The Bilderberg Group - Invisible Power
Global Vision
Nações Unidas
UNICEF
laRepública
the Globalist - global understanding
Le Monde diplomatique
Le Monde Diplomatique (ed. bras.)
Le Monde
Economist
El Mundo
Finantial Times
International Herald Tribune
Newsweek
Technorati
Biografia do Pensamento Político
História do Presente