terça-feira, outubro 31, 2006

Processo de candidatura

Foto de Familia do Corpo Editorial do Globalidades

Depois de ler no Jumento o valor do montante destinado a estudos inscrito no Orçamento do Estado para o ano de 2007, o corpo editorial do Globalidades a banhos no Brasil (segundo fontes credíveis) faz tornar público, a quem interessar, a sua candidatura a um desses estudozinhos.

Caro Jumento, não saberá, por mero acaso, Vossa Senhoria para aonde aqui a rapaziada poderá mandar CV actualizado?

Com os melhores cumprimentos destes seus leitores assíduos

Globalidades
Post Scriptum (para não ferir quaisquer susceptibilidades políticas com o emprego de siglas): Podemos não ser grande coisa mas som0s esforçadinhos. Viramos à esquerda, direita ou centro conforme as tendências da moda, tornando-nos desta forma polivalentes.

Where's Bin laden - a game for kids and the C.I.A



Manifestações Globais (1)

A Al-Qaeda à la minute - como refere Rohan Gunaratna, in “No Interior da Al-Qaeda, Rede Global do Terror”, a luta global contra a Al-Qaeda será o conflito marcante do início do século XXI. Osama bin Laden construiu uma organização que funciona operacional e ideologicamente a nível local, nacional, regional e global. Derrotar a Al-Qaeda e os seus grupos associados será o maior dos desafios com que se confrontarão a segurança nacional e a comunidade de serviços secretos, as autoridades de reforço da legislação e os exércitos nacionais no futuro próximo. (…) A ameaça que a Al-Qaeda representa irá testar a comunidade internacional, as suas instituições, os seus recursos e o seu empenho até ao limite.
Apesar da criação da Al-Qaeda remontar aos inícios dos anos 80, no decurso da invasão soviética do Afeganistão, torna-se claro que, nos últimos vinte anos, aquela passou, inicialmente, de simples “base” local de recrutamento de mujahedin contra o agressor laico-comunista para se assumir, numa fase posterior, como uma estrutura terrorista perfeitamente organizativa e operacional de carácter transnacional, tendo como líder destacado Osama bin Laden.
Finalmente, e nos tempos mais recentes, a Al-Qaeda tem vindo a assumir-se como um franchise terrorista e reactivo ao Ocidente, de forte cunho jihadista salafista, onde bin Laden é já um ícone de um vasto e diversificado movimento, que envolve dezenas de milhares de pessoas, algumas integradas em grupos, outras simples indivíduos. Saliente-se que esses grupos deslocam-se, modificam-se, crescem e desaparecem e que, do mesmo modo, os indivíduos entram em actividade e depois afastam-se, dando o lugar a outros.
Apesar de já haver notícias da presença e intervenção de bin Laden, no Afeganistão, desde os inícios da década de oitenta, é seguramente no ano de 1984 que é criado, em Peshawar, no Paquistão e perto da fronteira com o Afeganistão, por aquele e pelo xeque Dr. Abdullah Azzam (líder do ramo palestiniano dos Irmãos Muçulmanos) o Gabinete Afegão de Serviços (MAK). Também conhecido como Gabinete Afegão, ou Gabinete de Serviços, o MAK recrutava e apoiava os mujahedin (guerreiros santos) na resistência anti-soviética. A partir do MAK afegão, Bin Laden e Azzam formaram uma rede de gabinetes de recrutamento por todo o Médio Oriente, que rapidamente deu frutos. E até ironicamente em Brooklyn, Nova Iorque, foram abertas delegações. Em muitos locais, a organização apoiava-se nas estruturas dos Irmãos Muçulmanos já existentes. Eram tantos os recrutas que chegavam que o sistema de hospedagem de Peshawar teve de ser reorganizado.
Contudo, a maior parte dos voluntários que chegava ao Paquistão não tinha qualquer treino militar e eram mandados para um dos muitos campos de treino dos mujahedin para aí aprenderem os rudimentos sobre o manejo das armas ligeiras e pesadas. Em 1986, bin Laden e Azzam constroem o seu primeiro campo de treino, o al-Ansar (que é o nome do primeiro grupo de convertidos pelo Profeta Maomé, em Medina, depois da Hégira), em Jaji, na região de Paktia, no Afeganistão, que fazia fronteira com a região noroeste do Paquistão. À medida que o fluxo de mujahedin aumentava, bin Laden e Azzam construíam mais campos de treino e de alojamento, incluindo o famoso campo de Darunta, próximo de Jalalabab, no Afeganistão – visto ter sido construído com o apoio da CIA e os guerrilheiros nele manipularem armas bioquímicas. Contudo, bin Laden nunca recebeu dinheiro directamente da CIA. Todos os contributos americanos para a resistência afegã eram canalizados através do Governo paquistanês, mais propriamente do departamento afegão dos Serviços de Contra-Espionagem militar (ISI). Além disso, o financiamento americano era reforçado por dinheiro do Governo Saudita e por avultadas quantias recolhidas nas mesquitas, ou entregue por instituições de caridade não governamentais, e por doadores de todo o mundo islâmico.
Para os milhares de radicais muçulmanos (cerca de dez mil a vinte e cinco mil) que vieram de todo o mundo islâmico (cerca de vinte países) para se tornarem mujahedin e combaterem os soviéticos no Afeganistão, a expressão Al-Qaeda era proferida de forma mundana para descrever a base – o campo físico – a partir da qual operavam. Sendo uma expressão tão corrente em língua árabe, alguns dos jornais referiam-se, nesta língua, em 2002, à “base de Bagram”, onde se encontravam os soldados ingleses e americanos que procuravam bin Laden e os talibans, como al-Qaeda Bagram.
No sentido mais doutrinal, a expressão Al-Qaeda foi utilizada pelos mais extremistas entre os radicais que combateram no Afeganistão, especialmente por aqueles que entendiam que a luta não terminara com a retirada dos soviéticos do país e que formariam a vanguarda na qual se constituiria a “base firme” (al-Qaeda al-Sulbah) sobre o qual assentaria a sociedade do futuro.
A Al-Qaeda (tenha tido o círculo dos homens que rodeavam bin Laden este nome ou não) esteve sediada no Afeganistão até 1992 (aquando da queda de Cabul), tendo-se deslocado por essa altura para o “corno de África”, para estar mais perto dos novos teatros de operações. A Al-Qaeda esteve no Sudão até 1996, tendo nesse ano regressado ao Afeganistão por pressão do Governo americano à liderança sudanesa. O regime taliban e a hospitalidade do mullah Omar contribuíram, nessa altura, para a constituição de uma unidade de elite, denominada Brigada 055, no interior da Al-Qaeda.
Esta integraria seiscentos a quatro mil homens. O regime taliban permitiu ainda que, durante anos, o núcleo central dirigente da Al-Qaeda (bin Laden, al-Zawahiri, al-Rashidi, ali-Mustafa, Wel-Hage, etc.) montasse toda uma complexa e eficaz estratégia de jihad global de natureza terrorista, mantendo campos de treino, em momentos diversos, no próprio Afeganistão, no Sudão, na Bósnia, no Iémen e nas Filipinas, e apoiada por três núcleos regionais: o núcleo árabe (que planeou e executou o 11 de Setembro); o núcleo magrebino (que realizou os atentados de Strasbourg, de Paris, o caso “shoe bomber”); e o núcleo do sudeste asiático (que se ocupou dos atentados na Indonésia, em Singapura e nas Filipinas). Face ao exposto, torna-se claro que a dita Al-Qaeda soube transpor a doutrina e os conhecimentos adquiridos no Afeganistão (recrutamento, formação, etc.) para a grande jihad global, reunindo outras organizações terroristas (todas elas sunitas) e federando-as numa Frente Islâmica Mundial para a Luta contra os Judeus e os Cruzados (fundada em 1998), entre as quais se destacam o Grupo de Combate Salafita de Marrocos (Salafia Jihadia), o Grupo Islâmico da Indonésia e da Malásia (Jamaah Islamiyya), o Exército dos Puros de Caxemira (Lashkar-i-Tayyba) e a Jihad Islâmica Egípcia (al-Jihad al-Islami).
Mas face ao cerco dos serviços de informações, das polícias e dos exércitos dos países ocidentais e seus aliados árabes e/ou islâmicos, nomeadamente desde o 11 de Setembro, a Al-Qaeda, embora continuando, ao que parece, a ser dirigida do Afeganistão, não possui actualmente, no entanto, a mesma capacidade de organização directa ou indirecta de atentados, tendo ao mesmo tempo visto limitada a sua capacidade de financiamento e de apoio logístico dos mesmos. Por isso, o que assistimos hoje é a um conjunto de atentados, já não dirigidos directamente ou indirectamente pela Al-Qaeda, mas inspirados por ela, com grande iniciativa local e uma grande e perigosa volatilidade. Estes novos grupos ou indivíduos fundamentalistas radicais instituem, assim, uma espécie de franchise terrorista, ou seja, um suposto contrato de franquia que estabelece representação para exploração de um serviço (o terrorismo) e uso de uma marca (a Al-Qaeda).
E bin Laden? Forçosamente teremos de reconhecer que, cinco anos depois dos atentados nos E. U. A., Osama bin Laden continua a monte e pouco, ou nada, mais se sabe sobre ele, exceptuando talvez o vasto local onde se esconde (os mais de mil quilómetros de montanhas que separam o Afeganistão e o Paquistão) e o número de telefone via-satélite que chegou a utilizar (a título de curiosidade, era 00873682505331). Quem tiver a curiosidade de querer telefonar ao Sr. bin Laden, informamos, lamentavelmente, que o mesmo há muito que deixou de recorrer a outras formas de comunicação que não sejam as mensagens transmitidas pessoalmente. Quanto muito, ouvirá a voz de uma operadora solícita que lhe dirá que “o número está fora de serviço”… Contudo, o terrorismo não está!
FChBibliografia:

BARBOSA, Pedro Gomes, PEREIRA, Rui, ANES, José Manuel, BAÊNA, Miguel Sanches de, e RIBEIRO, António Silva, As Teias do Terror, Novas Ameaças Globais, Ésquilo, 2006BURKE, Jason, Al-Qaeda, A História do Islamismo Radical, Quetzal Editores, 2004GUNARATNA, Rohan, No Interior da Al-Qaeda, Rede Global do Terror, Relógio D’Água Editores, 2004LOPES, Margarida Santos, Dicionário do Islão, Editorial Notícias, 2002SANMARTÍN, José, El Terrorista, Cómo es, Cómo se hace, Editorial Ariel, 2005SINCLAIR, Andrew, Anatomia do Terror, Uma História do Terrorismo, Temas & Debates, 2005Telefone número 00873682505331, in Diário de Notícias, 12 de Setembro de 2006The Times Atlas of the World, desktop edition, Times Books, 2006

quinta-feira, outubro 26, 2006

Andamos todos picados? E você...




Andamos todos picados?

Um episódio singelo: ontem, lamentavelmente, descoseu-se-me um botão do meu formal casaco que, por questões laborais, visto com algum reconhecido incómodo formal. Ignaro que sou das artes de lavores e afins, tive que me socorrer de uma funcionária do Instituto para me coser o maldito botão, tendo sofrido, na pele, a picadela da agulha, por suposto descuido da senhora, e, na alma, a ferroada verbal de, ao longo da vida – e já homem feito – não ter aprendido a coser umas meias ou mesmo um simples botão. Às palavras da senhora juntou-se logo um coro crítico de outras colegas (e até mesmo dum colega, que, cobardemente, nunca confessou se sabia coser ou não) e vi-me algo perdido naquele universo de estranhas e novas capacitações e instrumentalizações que, obviamente, não dominava nem domino.

Confesso, pois, como reconhecido neófito que sou da blogosfera, que também não domino (ainda) as novas capacitações e instrumentalizações da mesma (e, porque não dizê-lo, as novas artes de enamoramento ou de repúdio intrablogosfera e transblogosfera). Mas à medida que vou desbravando terreno e cruzando informações, opiniões e sensibilidades, tento acertar as agulhas, a linha e o pano (desculpem-me a má metáfora) e procuro um rumo de abordagem a essa galáxia da World Wide Web, que – confesso – ainda não é certo e que está, para mim, ainda em fase de interpretação dos sinais e de construção, tipo A Obra Aberta ou os Apocalípticos e Integrados, do Umberto Eco, se quisermos dar um sentido mais académico e intelectual à minha nova aprendizagem da blogosfera.

Acredito - e muito -, pois sou um homem de paixões, na sua proposta de trabalho de criação e dinamização de um blog provindo da disciplina de Globalização e Sistemas de Poder e adequado ao tema da mesma. Além disso, num mundo académico que passa por ser, muitas das vezes, fechado e reticente à permeabilidade do novo mundo circundante, penso que a criação de um blog foi uma das melhores ideias que me foram dadas por professores – e, acredite-se, já passei, ao longo da vida, por várias universidades e já ajudei a “ressuscitar” outras, já fui professor de muitos alunos e sou gestor de muitos professores. Temos que ser contemporâneos do nosso tempo e sermos receptivos aos novos instrumentos tecnológicos, imprimindo, através deles, a nossa marca, mediante a proveitosa (para nós e para os outros) utilização que fazemos dos mesmos.

Já reconheci que ainda não encontrei o rumo certo na abordagem à blogosfera e talvez ao nosso blog. Já pensei nalgumas abordagens, umas mais eclécticas do que outras, e já tentei criar uma certa transversalidade de actuação, procurando trazer ao blog tópicos das outras disciplinas que integram a Pós-Graduação, fazendo do mesmo uma plataforma de trabalho onde possamos interagir nas diversas matérias, sem descurar, obviamente, a pertinência das mesmas no contexto da globalização. A instrumentalização do clipping peca, é certo, pela ocupação de um espaço que, à partida, deveria ser ocupado pela originalidade dos textos e das ideias e é também uma forma fácil de remediar a falta de tempo que todos nós, trabalhadores-estudantes, temos na concepção desses originais.
O clipping não é, pois, uma arte, mas pode ser um post it primário para preencher, por exemplo, lacunas de leitura diária (que provêm, na sua larga maioria, da falta de tempo para ler todos os jornais ou a literatura mais ou menos de referência) e lançar pistas aos outros do que achámos pertinente, referenciador e/ou provocatório.
Mas confesso que a originalidade dos textos compensa mais face, como já se referiu, ao tormento da crescente perda de reputação e de elementos de referenciação na cadeia de consumo de ideias ou de produtos culturais emanadas dos velhos jornais e revistas. E acrescenta o Macroscópio: Qualquer blogger com um QI médio (digamos) pega num semanário ou num diário, ou até numa revista e rapidamente conclui: pagam 100, 150 cts a este cromo demodé, algum ex-salazarista ou post-modernista oco – altamente previsível – para fazer este artigo de opinião; e eu faria melhor a mais baixo preço. Qual ou quais, de entre os bons bloggers, já não fizeram este juízo??? Eu, confesso, estou farto de o fazer…Aliás, eu já não compro jornais há 3 anos… Faço toda a filtragem pela WWW.

Acredite-se que, no pouco tempo que tenho de enamoramento pela blogosfera, já começo a partilhar de alguma das crítica, mas também lhe confesso que, apesar de tudo, não vou deixar de comprar jornais e revistas e de fazer toda a filtragem pela WWW. Neste ponto, partilho das palavras de Terêncio que dizia que nada do que é humano me é estranho e que, portanto, mesmo o que é mau não deixa de ser humano. Além disso – e vai desculpar-me – jamais irá convencer-me a deixar de comprar a Maxmen e a divertir-me com os cartas da Margarida Rebelo Pinto sobre o pertinente modus vivendi da nossa sociedade actual, baseando-se em clichés da alma e do coração razoavelmente globalistas e globalizadores (melhor, eu diria que são clichés que atormentam tanto o chinês que está na China como o português que vai ao Buddha Bar, criando-se assim uma homogeneidade global de euforias e frustrações).

Além disso, não sei se deverei pedir-lhe desculpas, ou não, por ter-lhe enviado, em forma de clipping o artigo de opinião do Pedro Rolo Duarte, que saiu no DN, sobre a suposta antevisão apocalíptica do fim da existência em papel dos jornais, citando desdenhosa e ironicamente a fonte da mesma, ou seja, o jornal El País, com base numa entrevista dada a este por Steve Ballmer, presumível sucessor de Bill Gates no papão globalista que se chama Microsoft.
Pedro Rolo Duarte, zeloso do papel em que se imprime a sua catedrática opinião às quartas-feiras, ficou picado com o advento da besta tecnológica que se prepara para engolir vorazmente o último reduto daqueles que ainda conseguem moldar a mente social através do verbo (o que, em termos simbólicos, constitui uma autêntica heresia face à importância do verbo, na sociedade ocidental cristã, desde a escrita do Evangelho de João). Terá por outro lado, o Rui ficado também "picado" pelas palavras pouco abonatórias do dito escriba em relação ao papel concorrencial dos blogs? Talvez – não sei!
Mas confesso que colho as palavras de Pedro Rolo Duarte como fruta fora de estação: É a revolução do começo do século XXI: cai por fim a fronteira que separava os produtores de conteúdos dos fabricantes de máquinas, software e meios de distribuição. Tudo se aproxima e encontra num patamar que reúne emissores e transmissores. O fascínio deste mundo novo constitui a sua própria ameaça: a imensa liberdade que a Internet proporcionou a todos pode subitamente estreitar-se, ou ficar reduzida à agulha de um blogue no palheiro de uma gigantesca rede, organizada e devidamente comandada por quem detém a criação – e ainda os meios de produção, distribuição e controlo sobre o destino de cada byte de informação.

Em suma: temos o Pedro picado, temos o Rui provavelmente picado e até eu estou picado. Esclareço: nesta ainda curta iniciação à blogosfera, vi-me ingenuamente em campo de ninguém entre dois contendores (a blogosfera e o jornalismo clássico) que travam uma guerra surda de virtudes virtuais e de penas penadas… Como sou novo nestas coisas e nem cumpri o serviço militar, prefiro fumar, para já, um cigarro acrítico e evitar campos minados.

Modestamente, só considerei que o artigo do Pedro Rolo Duarte era digno de publicação no Globalidades pelo tom provocatório que encerra em relação ao universo dos blogs. O artigo do DN vale pelo que vale e dele só queria fazer uma base de partilha de opiniões com os colegas, através de comentários no blog ou entre dois cafezinhos no bar, porque, infelizmente, não há tempo para mais.


Fernando Chambel

A dinâmica da globalização: no princípio era o Verbo



Image Hosted by ImageShack.us


Talvez tenha começado no dia em que um homem, anónimo e primitivo, algures no mundo, plantado num continente ainda sem nome, e movido por uma intensa curiosidade (e estupidez natural), caminhou para além dos seus limites, buscando outros horizontes e um outro zénite. Ultrapassando os limites desconhecidos pelo seu grupo ou tribo de origem. Saíu do seu "casulo"...

Só que este movimento não foi único, outros o fizeram ao mesmo tempo, sem o saberem, e daí resultou algum tipo de comunicação, revelando que no princípio era o Verbo, e depois se desenvolveu e aprofundou. Foi a partir desse momento que os homens nunca mais pararam de caminhar (por vezes em direcção à morte), e de olhar em redor com o fim de se integrarem num processo. O processo aqui designado por dinâmica da globalização competitiva, cada vez mais amplo, dual, fracturante e problemático.

Os portugueses foram pioneiros na aplicação prática dessa dinâmica, com a gesta dos Descobrimentos, desde o final do séc. XV, e com a invenção de novos equipamentos de navegação, um processo que se generalizou depois a todo o Planeta, ao mesmo tempo que aumentava a influência europeia no mundo. A esse processo se chamou Euromundo. Foi com a coragem e aventura dos portugueses - espaço e tempo - comprimiram o mundo, tornando-o mais pequeno. A própria definição do sociólogo Anthony Giddens, director da London School of Economics, está cerca de 500 anos atrasada, apesar de interessante. Diz ele:
A globalização pode ser definida como a intensificação, à escala global, de relações sociais que ligam localidades distantes de tal forma que os acontecimentos locais são influenciados por acontecimentos que ocorrem a muitos quilómetros de distância e o seu inverso.
Deve ter-se inspirado na experiência histórica dos portugueses. No séc. XIX, o telégrafo submarino reduziu o tempo com as informações e as decisões mais importantes a cruzarem o espaço, atravessando diferentes pontos do globo, sem desfazagem de tempo, ou melhor, o tempo da decisão aproximou-se rapidamente do tempo do pensamento. Passou a haver sincronia entre a mente e a acção, o que foi uma revolução cujos efeitos ainda hoje estão por digerir.

Actualmente, quase tudo, pode ser programado e executado em tempo real. Para o melhor e para o pior. Vejamos três breves exemplos: no acesso a um medicamento, a um livro ou a uma tecnologia que permite melhorar substancialmente a nossa qualidade de vida; ou, no pior dos casos, mediante acções terroristas provocando inúmeras baixas civis (e outras) e tendo como efeito estratégico atemorizar a opinião pública para dividir os governos e as sociedades e criar, desse modo, uma psicose colectiva altamente instabilizadora.

Portanto, o actual processo de globalização diferencia-se do iniciado há milhares de anos dado que o mundo se tornou um só e instantâneo. O acesso imediato às informações e aos bens e serviços, a influência do poder do conhecimento tornaram-se globais. Por conseguinte, falamos aqui de um processo que decorre em simultaneidade e é totalizante, que cobriu a totalidade da vida do homem. De certo modo, a globalização torna iguais os seres, independentemente do grupo a que pertençam ou da sua filiação, mas depois emergem diferenças no seio de cada sociedade ou grupo que não podem ser artificialmente niveladas.Daí a fractura no interior das sociedades...

Nessa óptica, a globalização assume uma condição predatória, desigual, triturante, excludente dos mais fracos e menos preparados (técnica e culturalmente). É, em suma, um mecanismo reprodutor e ampliador de desigualdades, ampliando-as e mostrando ao mundo, afinal, que o darwinismo social tem uma dimensão política global dramática, a carecer de urgente regulação. Ora é este o reverso da medalha da tal globalização feliz, revelando que a dinâmica da globalização, apesar de unir os países e os povos, (pode) dividir ainda mais os homens.
Infelizmente, já não podemos ter todos 15 meses e regressar ao nosso quarto para brincar com o nosso piano da Chicco, como faz o João. Milhões de crianças nem sequer sabem o que é uma refeição, quanto mais um piano ou a marca que ele possa ter no mercado dos objectos e do dinheiro onde vivemos. Como diria Carlos Drumonde Andrade:
  • A coisa mais triste do mundo é a boneca não brincada...

Esperemos que o João possa crescer num mundo melhor do que aquele que temos hoje.

RPMatos

Macroscopio

quarta-feira, outubro 25, 2006

Elementos Globais: começando no tamanho S.


Tenho cara de miudo, mas de engenhocas percebo eu. Moro com dois tipos, um senhor e uma senhora, que estão razoavelmente informados e apetrechados com uma série de aparelhos, alguns dos quais, parte integrante de um conceito que dizem chamar-se Globalização.

Começo logo por contrariar aquelas estatísticas divulgadas não há muito tempo, que afirmam que existem dois telemóveis por português, pois só eu disponho de três, os quais uso com amiudada frequência. Eles, claro, divertem-se a enviar sms e mms para amigos e colegas, já para não falar das horas e horas de interminável conversa. Se um dia lhes escondo os telefones, ver-me-ei na presença de duas criaturas tontas, com ataques de ansiedade porque não conseguem contactar com aquele amigo ou amiga para, tipicamente, “cortarem na casaca de alguém”.
Agora, imaginem aquele aparelho sobejamente conhecido, denominado televisão, onde vejo os meus documentários preferidos, tentando saber mais qualquer coisa do que aquilo que aprendo diáriamente, isto, claro, quando eles não estão a ver o telejornal para, segundo dizem, estarem sempre a par dos últimos acontecimentos da “Aldeia Global”. O mesmo é dizer, informações que, por força da velocidade dos acontecimentos e da circulação da informação, já se encontram, naquela altura, bastante desactualizadas.

Agora imaginem-nos sem telemóveis e sem televisão, tudo ao mesmo tempo. Esse exercício façam-no vocês, porque eu não me atrevo. Mas ainda não chegámos a um cenário dantesco.

Eles, de quando em vez, levam-me a tomar contacto com duas ferramentas que muito me encantam: O computador lá de casa e a respectiva Internet. Tão depressa estou nas profundezas do mar a visitar os destroços do Titanic, como estou a ver, em tempo real, o trânsito na 2ª circular, ou estou numa chat room com um amigo.

Aqueles cibermaníacos dependem da Internet para tudo, menos dormir, respirar e outras coisas que aqui não devo nomear. Utilizam Pens para trazer trabalho para casa, consultam informação financeira, ele, as receitas mais recentes, ela. Escrevem, coitados (tentam), debitar qualquer coisa que se leia, num blogue muito nosso conhecido.

Por vezes pergunto-me, se ainda conseguem escrever com lápis e caneta, em vez do teclado do computador.

E agora vem o 3º percalço, definitivo, incapacitante. A “caixa mágica” de comunicação interactiva com o exterior (computador) avaria-se, no mesmo dia e na mesma hora que os telemóveis e a televisão: Com que é que ficamos? Com dois Desglobalizados, fora de tudo, sem ligação a elementos essenciais da infraestrutura global de comunicações, na qual assenta a Globalização e a vida deles. O chato é que, para mim, as coisas também não ficam fáceis. Mas não importa, vou para o quarto brincar com o meu piano da Chicco. Desculpem-me, ainda não me tinha apresentado: chamo-me João e tenho 15 meses de idade.

Coronel Vassily Khitriouk

Coronel Vassily Khitriouk

Rússia detém funcionário suspeito de espionagem para a Lituânia

Subitamente, a espionagem russa tem feito furor na imprensa internacional, no decurso de várias acções empreendidas em torno dos interesses geoestratégicos do seu país, nomeadamente em países vizinhos que integravam a antiga União Soviética. Este novo ímpeto de vigilância e operacionalidade decorre da aproximação política e militar da maior parte desses países ao Ocidente e à Nato, o que tem despertado os maiores receios junto do Governo de Vladimir Putin, desejoso, de há muito, como refere António Vitorino num artigo de imprensa citado no globalidades, de ver o mundo novamente “lidar com uma Federação Russa segura de si própria, capaz de potenciar as suas vantagens comparativas e interessada em fazer respeitar o seu estatuto recuperado de potência com vocação global”.
Acrescente-se que, enquanto os episódios de espionagem na Geórgia (também citados no Globalidades) se configuram no quadro das informações estratégicas políticas defensivas (perante um hipotético cenário de ameaça externa decorrente da Nato, por intermédio da Geórgia), este episódio da Lituânia configura um quadro híbrido de informações estratégicas de defesa e de segurança, conhecida que é a importância da frota do Báltico, na defesa do país, e a acção do FSB (os serviços secretos civis russos) na vertente da contra-espionagem e na detecção de espiões, apesar dos mesmos – supostamente – não beberem Martinis.

Os serviços secretos russos anunciaram hoje que detiveram um funcionário suspeito de colaborar com a Lituânia em Kaliningrado, um enclave da Rússia no continente europeu. “O FSB (ex-KGB) apanhou em flagrante delito, em Kaliningrado, o coronel Vassily Khitriouk, que colaborou durante muito tempo com os serviços secretos lituanos”, avançam os serviços secretos russos em comunicado.

O suspeito foi detido em posse de informações “de carácter militar relevantes do ponto de vista do segredo de Estado”, acrescentou o FSB.

“A operação impediu que informações secretas sobre a preparação e mobilização da frota do Báltico e sobre as tropas russas estacionadas na região de Kaliningrado saíssem do país”, precisou o FSB, que acrescentou ter “provas irrefutáveis” da culpabilidade de Vassily Khitriouk.
O ministro lituano dos Negócios Estrangeiros não quis comentar o anúncio do FSB.

A Lituânia expulsou em 2004 seis diplomatas russos por espionagem. Em represália, Moscovo expulsou quatro diplomatas lituanos, nomeadamente um adido militar, recusando-se mais tarde a acreditar o seu sucessor.

in “Público”, de 24 de Outubro de 2006

GLOBALIZAÇÃO: UM FENÓMENO SUSTENTÁVEL? *



"A nossa espécie está a tornar-se um todo intercomunicante com poderosos laços económicos e sociais que ligam todo o planeta. Os nossos problemas são, cada vez mais, de foro global e admitem apenas soluções globais"

Carl Sagan / Ann Druyan


O processo de globalização trouxe profundas transformações para as sociedades contemporâneas. Mas será a globalização um fenómeno sustentável? Será um fenómeno democratizado, socialmente equitativo e eticamente correcto? Será que o enorme fosso entre “ricos e pobres” poderá um dia ser regulado e mais equilibrado?

E surgem assim os conflitos e as contradições da “aldeia global”. Todos integramos de facto uma mesma comunidade, sendo de todos nós todos os seus problemas. Justifica-se então que a integração espacial seja perseguida para ser conseguida, até porque há problemas que não se circunscrevem nem cabem dentro de quaisquer barreiras ou fronteiras. Além disso, a comunidade global que constituímos não deve ser reduzida na sua diversidade.

“Aldeia global” será, mas em sentido diverso do que se tem entendido desde sempre para as comunidades de facto que as tradicionais aldeias sempre foram. Mas o essencial é o seguinte: num mundo globalizado, quem cuida do bem comum mundial?

Algumas empresas multinacionais são mais poderosas – até politicamente – do que muitos Estados. Os mercados globais ditam cada vez mais a sua vontade aos políticos das nações. Sem algum controle democrático sobre os mercados à escala internacional, será a economia a prevalecer sobre a política.

Ora o mercado será um meio de uma extraordinária eficácia – mas não deve funcionar no vazio político. Se assim for, a globalização tornar-se-á “selvagem”.

No entanto, o escândalo maior do nosso tempo são as desigualdades que persistem numa época em que os progressos da ciência e da técnica permitiriam saciar a fome a todos; e a nova economia global envolve riscos sérios de agravamento de assimetrias, que pesadamente se apoia sobre a concorrência desregulada. Os pobres não estarão a ficar mais pobres, em termos absolutos, mas estão decerto a ficá-lo em termos relativos, porque está a marcar-se a diferença, a divisão, entre os beneficiários da impropriamente chamada “nova economia” e os excluídos da globalização e da chamada sociedade de informação.

A decisão política de os poderes públicos se preocuparem a sério com os excluídos passa pela ética. Até onde a globalização, que traz associada a competitividade, vai ser marcada pela solidariedade?

Será uma globalização condicionada uma verdadeira globalização? Alguns dirão que não o será, de facto; mas a verdade é que, embora sem optimismos, haverá no mínimo que enquadrar a globalização nos valores sociais e humanos do desenvolvimento, nos princípios da cidadania, orientando-a no sentido de objectivos determinados pelas pessoas e minorando o peso dos interesses particulares dos que, refugiados nas grandes escalas, sabem poder escapar a qualquer tipo de regulação ou controlo.

É de todo evidente que, não sendo fácil fazer adoptar pela globalização um código ético que a regule, até porque a montante se situam grandes dificuldades na própria elaboração desse código, só resta procurar submeter os processos seus característicos a estímulos e incentivos de conduta determinados por objectivos de desenvolvimento.

Tudo continua a depender, hoje como ontem, antes de a globalização se apresentar como problema, da vontade política de uma política regional que seja a síntese das políticas a executar em base espacial concreta. O que parece claro é que a globalização não só não veio facilitar as soluções para o desenvolvimento como veio agravar a natureza do próprio problema.

Parece não haver alternativa: a globalização tem de ser regulada. E as interrogações permanecem: estaremos ainda a tempo de conter, ao menos regular, direccionar, disciplinar a globalização?

A vontade política que até hoje só debilmente se interessou pela política regional existirá agora para a afirmar?

A consciência dos riscos da globalização desenquadrada está adquirida? A globalização poderá ser, para alguns, “onda” que mais cedo ou mais tarde se desfaz, ou “moda” que mais tarde ou mais cedo vai passar. Mas, ainda assim, deverá pacientemente, passivamente, esperar-se que a onda se desfaça ou a moda passe?
Porque a globalização está aí, e está para ficar.
* Sintese de um texto gentilmente cedido por Luis Dias

terça-feira, outubro 24, 2006

Geórgia

Image Hosted by ImageShack.us



GEÓRGIA
Espiões russos de olhos postos na Abecássia

Oficialmente, os serviços secretos russos não têm o direito de trabalhar em território georgiano. Os membros da Comunidade de Estados Independentes (que reúne 11 ex-repúblicas soviéticas) assinaram, em 1992, um acordo que proíbe tal actividade no território de outro país signatário. Não foi, contudo, o serviço de informações militares russo (GRU) que redigiu esse documento, e isso explica o caso recente (a Geórgia deteve seis soldados russos acusados de espionagem, enfurecendo Moscovo).

O trabalho dos serviços secretos diz respeito, antes de mais, a locais estratégicos. A Geórgia pode interessar tanto ao GRU como qualquer Estado que tenha contacto com a NATO. É o caso dos países da Europa de Leste – Praga é um dos pilares do GRU na Europa. No que toca à NATO, a Geórgia é o local ideal para obter informações por via electrónica e encaminhá-las para a Rússia, graça a aviões espiões e escutas radiofónicas. Já em 1997, o Governo dos Estados Unidos propusera à Geórgia um papel no seu programa de defesa aérea, que fora concebido a pensar nos países da Europa Central, três anos antes. Um dos seus objectivos centrais era “estabelecer operacionais nacionais de controlo do espaço aéreo”.
Estes centros deveriam permitir a troca de informações com todos os países da NATO e possuíam uma rede de radares militares capazes de interceptar comunicações radiofónicas. Instalado em solo georgiano, um desses centros poderia vigiar todo o Norte do Cáucaso, incluindo a Tchetchénia. Segundo certas fontes, o dispositivo já estará operacional.

Parece, porém, que os agentes do GRU não queriam apenas descobrir os segredos da NATO. Desde o início dos anos 90, os serviços secretos russos dirigem o chamado “projecto abecaze”, desempenhando um papel determinante no desencadear da guerra entre a Geórgia e a Abecásia (república autónoma georgiana, autoproclamada independente). O GRU seguiu de perto os planos georgianos, reais ou presumidos, para obrigar a Abecásia a regressar, pela força, à esfera da Geórgia.

Basta recordar as numerosas declarações de responsáveis militares abecazes relativas aos planos secretos do Estado-Maior georgiano para invadir a República não-reconhecida. Esses discursos alarmistas repetem-se todos os Outonos, desde há cinco ou seis anos. Ainda que não tenham grande fundamento, alguém acredita que os serviços secretos abecazes pudessesm ter obtido tais informações?

Segundo o Ministério do Interior georgiano, os agentes do GRU estão menos preocupados com os terroristas do vale de Kodori (Abecásia) ou os últimos planos da NATO, e mais com a localização das unidades georgianas. Ora, isso só interessa a quem quer averiguar, de novo, se a Geórgia se prepara para invadir a Abecásia.


in “Courrier Internacional”, n.º 80, de 13 a 19 de Outubro de 2006
Fernando Chambel

O regresso da Rússia - por António Vitorino -



O regresso da Rússia (in DN)
António Vitorino
Jurista

Na semana passada, dois acontecimentos da maior relevância futura ocorreram nas relações entre a Europa e a Rússia.Nos primeiros dias, de forma discreta, o website da Gazprom anunciava que todas as empresas estrangeiras haviam sido eliminadas como parceiros potenciais do projecto de exploração das reservas de gás de Shtokman (pondo assim termo às aspirações de cinco empresas americanas, norueguesas e francesas). Dois dias depois, o Presidente russo, Vladimir Putin, deslocava-se a Dresden, na Alemanha, para um encontro com a chanceler Angela Merkel, onde saudou a nova ostpolitik que o Governo alemão preconiza para a definição das relações entre a União Europeia e a Rússia.
A primeira decisão tem um significado político inequívoco: a partir de agora findam as especulações sobre se a prioridade russa seria dirigir a produção de gás de Shtokman para o Ocidente ou para o Leste, visando a China e a costa oriental dos EUA. O beneficiário desta decisão será, pois, inequivocamente o pipeline do mar Báltico e a garantia de abastecimento de gás russo à Europa, conferindo à Alemanha um papel central não apenas na relação com a Rússia como na definição da arquitectura energética europeia no seu conjunto.
A Gazprom confirma desta forma que nos seus projectos de expansão o mercado europeu passa a ser a primeira prioridade, reforçando um partenariado com interesses alemães que não deixará de produzir os seus efeitos quando Bruxelas tiver que definir as condições de entrada do gás russo no mercado europeu. Ao mesmo tempo, esta decisão, obviamente endossada pelo Kremlin, constitui um sinal da degradação das relações políticas e económicas entre a Rússia e os Estados Unidos da América, designadamente depois das condições duras impostas por Washington nas negociações de acesso da Rússia à Organização Mundial de Comércio.
Mas o tema energético marca de forma muito evidente a reentrada da Rússia como superpotência no quadro internacional. Aproveitando a alta dos preços e a percepção de quebras no aprovisionamento energético a prazo, a Rússia usou a "janela de oportunidade" das garantias de aprovisionamento energético num mundo dependente e globalizado para tirar partido das suas vantagens geográficas e do seu potencial de recursos naturais. Se é verdade que o produto interno russo só para o ano voltará a estar ao nível do ano do colapso da União Soviética (1991), não é menos verdade que o crescimento induzido pela alta dos preços da energia nestes últimos dois anos permitiram à Duma aprovar orçamentos que assinalam crescimentos recordes da despesa (40% em 2006 e 28% em 2007, prevendo que para o ano o preço do barril de crude dos Urales se situará em média nos 61 dólares americanos).
Esta decisão terá decerto influência nas eleições russas do próximo ano... O mundo em geral, e a Europa em particular, vai assim ter que lidar com uma Federação Russa segura de si própria, capaz de potenciar as suas vantagens comparativas e interessada em fazer respeitar o seu estatuto recuperado de potência com vocação global. A Rússia sabe que as potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos, precisam do seu contributo para lidar com a crise da Coreia do Norte e do Irão, para conduzir a luta contra o terrorismo (onde a experiência e as informações recolhidas nas zonas de dominância muçulmana do Sul do país se têm provado de grande utilidade global), para desenvolver uma estratégia concertada no Médio Oriente, para garantir a segurança do abastecimento energético num mundo onde a luta por fontes de energia com as potências emergentes (China e Índia) constitui a grande marca deste início do século XXI.
Para tanto exige ser tratada não como um parceiro menor, mas como uma superpotência que lida com os demais poderes globais de igual para igual.Nesta estratégia de afirmação internacional, a Rússia pretende ver reconhecida a sua liberdade de lidar com os seus problemas internos sem ingerências (a Chechénia, a afirmação de um capitalismo de Estado na formação de 12 grandes campeões nacionais em tantos outros sectores vitais para a economia russa, uma crescente onda xenófoba contra os não russos e os não cristãos e um acelerado declínio da sua base populacional), mas ao mesmo tempo pretende beneficiar de transferências de tecnologia e de apoios na qualificação profissional e educacional dos seus cidadãos, para o que a presença de empresas estrangeiras será sempre fundamental e imprescindível.
A bola está, pois, no campo da União Europeia e a cimeira UE-Rússia do ano que vem terá lugar sob presidência portuguesa!

segunda-feira, outubro 23, 2006

Cultura Global


"The globalization of culture is not the same as its homogenization, but globalization involves the use of a variety of instruments of homogenization... that are absorbed into local political and cultutral economies, only to be repatriated as heterogeneous dialogues of national sovereignty, free enterprise, and fundamentalism in which the state plays an increasingly delicate role: too much opens to global flows, and the nation-state is threatned by revolt... too little, and the state exits the international stage. In general, that state has become the arbitrageur of this repatriation of difference.(…) The central feature of global culture today is the politics of the mutual effort of sameness and difference to cannibalize one another and thereby proclaim their successful hijacking of the twin Enlightenment ideas of the triumphantly universal and the resiliently particular."
Será...?


Arjun Appadurai, Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization, 1996.



(ff)

domingo, outubro 22, 2006

Ser e Ter


Ser e Ter


A globalização surge-me como processo de encontros e desencontros de poder, que nas suas diversas manifestações sociais, sejam económicas, políticas ou teológicas, esbarram muitas vezes naquilo que um povo tem de mais essencial, visão do mundo e cultura edificada.

A globalização implica uma ameaça mas também uma oportunidade, se a primeira é real, a segunda, só no futuro, porventura, será conhecida na sua plenitude.

O terrorismo é um fenómeno global e reincidente, que advém da ameaça sobre os fundamentos civilizacionais, num espaço e tempo actualizados. Mas serão os actos terroristas a verdadeira ameaça da globalização?

Mais do que uma ameaça real, são uma ameaça sentida. Paralisam-nos pelo impacto indirecto da brutalidade sem rosto. Contudo, será outra a ameaça, mais global e corrosiva, que julgo invadir-nos os fundamentos do ser e aliá-lo da sua natureza.

Os povos mais desenvolvidos do ponto de vista tecnológico terão criado a sociedade do ter. Somos ou tornamo-nos por aquilo que temos. Alheámo-nos do nosso viver para vivermos naquilo que os outros nos vêem viver pelo ter, em ensaios mais ou menos cinéfilos e quotidianos.

Os bens materiais circundam-nos facilmente provocando necessidades artificiais que prolongam a nossa insuficiência. Pouco ou nada conhecemos deles senão a sua presença confortável e retribuída, que utilizamos decifrada num prazer escoado e mediático.

Habitamos matérias-primas de todos os cantos do mundo, trabalhadas à medida do nosso conforto e compensação. Alheámo-nos da sua origem e das vidas gastas em tempo manufacturado ou programado em máquinas estranhas que só por acaso vemos. O ser não é estável, já não permanece edificado sobre o bem e o belo Platónicos, mas antes, aliena-se na distância de não pensar o ter, apropriando-o de modo volátil e sem sentido.

Poderemos perguntar; onde está a ameaça? Será possivelmente uma ameaça ao significado e sentido último da relação com o mundo. Contudo, uma ameaça que nos deixa prostrados de copo na mão sob um olhar indiferente. Uma ameaça que ressoa no afastamento da nossa própria natureza e das coisas. Uma ameaça que impõe que se desmonte e actualize o ter na sua razão de ser.

P.A.

sábado, outubro 21, 2006

A parábola dos cegos acerca da globalização


A utilidade em evitar um debate redundante em torno da "globalização" é o de considerar esse fenómeno de forma multidimensional, como um "processo de processos" sem conclusões fechadas, logo em franca progressão, em constante dinâmica. Até porque a sociedade portuguesa reage de modo diverso a um estímulo do exterior do que, por exemplo, a sociedade espanhola, aqui ao lado. Daí a necessidade de avaliar nesta equação global as questões de transformação e de mudança social. Embora os teóricos do sector discordem da melhor definição sobre o fenómeno, até porque cada um tem a sua e as vaidades espistemológicas e académicas também pesam nesta avaliação.
O que nos levará a falar de globalizações em função da sociedade e da economia a que reportamos a análise. Mas dada a incerteza e complexidade desta avaliação é que faz algum sentido aquela imagem, extraída do livrinho cit. num post abaixo de Manfred Steger - A Globalização - que permite funcionalizar a velha parábola budista dos eruditos invisuais e da sua relação epistemológica com o elefante, exercício inteligente porque nos ajuda a enquadrar as "guerrinhas de capelinhas" (como se verificou com a entrada do MIT em Portugal..) por parte de cada um dos teóricos que estuda o fenómeno. Ora, dado que aqueles cegos nunca souberam qual o aspecto do elefante, resolveram criar essa imagem mental. Como?? Tocando no animal, registando a sua volumetria, dimensão, etc. e, assim, reconstruindo a sua natureza.
Desta forma, um desses cegos defendeu que a tromba do elefante era como uma cobra cheia de vida; outro, esfregando a sua enorme pata aduziu que se tratava dum animal de enormes dimensões; outro, pensou que a cauda do Paquiderme seria uma escova gigante; e um outro ainda ao tocar nos seus dentes supôs tratar-se duma grande lança.
Resultado: cada um dos cegos que tentava avaliar a natureza do elefante ficara com a sua própria convicção do que é o elefante (perspectivismo). E depois discutiram entre eles o que poderia ser - de forma mais consensual - o paquiderme. Por analogia à globalização, esta não decorre só da economia, só da política ou só da cultura. Ela representa o tal processo multidimensional que, nuns casos, pode relevar mais cada uma daquelas vertentes, noutros casos de todas elas em conjunto. Portanto, a G. é um processo inacabado para onde convergem fenómenos e variáveis económicas, políticas, ideológicas, culturais e ambientais que tecem uma teia complexa que nós, em função das nossas possibilidades e interesses, vamos tecendo.
Um pouco como a Penélope em que de dia tecia e à noite...

sexta-feira, outubro 20, 2006

Novas tendências migratórias à escala mundial


Novas tendências migratórias à escala mundial

Han Entzinger *

Janus 2001


No limiar do século XXI assiste-se, em muitos países do mundo, a níveis recorde de imigração. Entre 1965 e 2000 o número de pessoas que vive fora do país em que nasceu aumentou de 75 para 100 milhões. Contudo, não mais de 1 em cada 40 cidadãos do mundo é imigrante. Isto inclui refugiados e migrantes sem documentação. Cerca de 55% de todos os migrantes internacionais vivem em países em vias de desenvolvimento; os outros 45% no mundo desenvolvido. Nos países em vias de desenvolvimento a percentagem de imigrantes na população total tem-se mantido estável ao longo dos últimos 35 anos, flutuando sempre perto dos 1,6% dessa população total. Em contraste, nos países desenvolvidos a percentagem duplicou no mesmo período, ainda que em média não esteja acima de cerca de 5%. Em face destes números relativamente modestos, é surpreendente que a migração tenha vindo a ganhar importância na agenda internacional de modo tão acentuado, e que prometa continuar a apresentar-se como assunto na ordem do dia no futuro mais próximo. E porquê? Será porque as pessoas temem acima de tudo os "perigos" que não conhecem? Serão a globalização e a ideia de que reservas imensuráveis de imigrantes possam abrir-se em países em vias de desenvolvimento? Será o receio de que a migração tenha ficado fora de controlo num mundo cada vez mais pequeno? Será um ressurgimento da xenofobia e do nacionalismo, talvez como reacção à crescente internacionalização? São tantos os factores envolvidos que se afigura impossível compreender na totalidade o que está a acontecer.
Padrões de migração no mundo
Sempre houve migração no mundo. Ao longo dos últimos séculos a Europa assistiu a uma intensa migração interna, mas o continente, no seu todo, foi dominado mais pela emigração do que pela imigração. Até às primeiras décadas do século XX, dezenas de milhões de europeus deixaram o "Velho Continente" para se fixarem quer nas colónias, quer naquele que era chamado "Novo Mundo". Esta tendência só veio a inverter-se desde a Segunda Guerra Mundial. Agora os migrantes vinham estabelecer-se na Europa. Entre 1950 e 1980 eles vieram sobretudo de antigas colónias. Houve também uma migração laboral significativa nestes anos, que era em parte intra-europeia (do Sul para o Norte) e em parte vinda da periferia da Europa (África do Norte, Turquia). Mais recentemente, o padrão migratório tornou-se muito mais diversificado, assim como se tornaram mais diversificados os motivos para a migração e os países de onde os migrantes são originários. Neste aspecto, três tendências se destacam. Em primeiro lugar, a da subida do número de refugiados e de pessoas que procuram asilo, muitos dos quais vêm da própria Europa (por exemplo, da antiga Jugoslávia).

Em segundo lugar, a mudança na Europa do Sul, que passou a receber também imigrantes. Em terceiro lugar, o novo papel de países do Centro e Leste da Europa, que funcionam como zona de trânsito para muitos que vêm de mais longe e que sonham com um futuro melhor no Ocidente.

A migração é também importante em muitas outras partes do mundo. Apesar do peso gradualmente menor do factor distância, muita migração internacional ainda tem lugar em termos de deslocações relativamente curtas. Muitos migrantes deslocam-se como trabalhadores para países próximos que oferecem melhores oportunidades do que o seu próprio país. Em África, a Costa do Marfim e a África do Sul são pólos de atracção destacados para trabalhadores migrantes. Há também importantes movimentações de refugiados por todo este continente, sobretudo entre países vizinhos. Este é também o caso em algumas zonas do Sueste Asiático. Um em cada sete migrantes no mundo é hoje um refugiado, e apenas uma pequena percentagem dentre estes vem para o Ocidente.

Deixando de lado o caso particular de Israel e o seu enorme e recente influxo de judeus russos, os principais receptores de migrantes na Ásia são os Estados do Golfo e as zonas mais desenvolvidas do Sueste Asiático/Anel do Pacífico, incluindo a Austrália. Muitos trabalhadores migrantes vêm de países próximos que são economicamente menos desenvolvidos. Estima-se, por exemplo, que 4,5 dos 75 milhões de filipinos trabalhem no estrangeiro, muitos dos quais na Europa e na América do Norte. Até à data, o Japão, altamente desenvolvido, tem recebido relativamente poucos imigrantes. Este país preferiu sempre exportar empregos para países com baixos níveis remuneratórios, mas defronta no presente o problema de uma população em processo rápido de envelhecimento, o que se torna difícil de suportar, quando não há trabalhadores em número suficiente. É interessante verificar que os dois países mais populosos do mundo, a China e a índia, não têm desempenhado, até à data, um papel muito proeminente na migração internacional, embora mostrem índices assinaláveis de migração interna.

Na América Latina e nas Caraíbas existe alguma migração das áreas mais pobres para as mais ricas, mas o padrão no Hemisfério Ocidental é dominado pela migração Sul-Norte para os Estados Unidos e o Canadá. Estes são dois países tradicionalmente ligados à imigração, ainda que a maioria das pessoas não se aperceba de que o actual nível de imigração nos Estados Unidos é similar ao da Europa; no Canadá esse nível é de cerca do dobro. Desde os últimos anos da década de 60, a vasta maioria dos imigrantes que chegam aos EUA e ao Canadá vêm de países em vias de desenvolvimento, e já não da Europa. Actualmente, quase metade da população de Toronto, a maior cidade do Canadá, nasceu fora do país. As previsões demográficas apontam para que por volta do meio do século XXI os americanos de origem não-europeia venham a ser em maior número do que aqueles com antepassados europeus. A migração muda realmente a face do mundo, mas apenas muito lentamente.

Determinantes das migrações futuras

Praticamente todos os peritos concordam em que haverá mais migração no futuro. No entanto, e tal como a nossa breve abordagem geral dos padrões actuais indica, as migrações não têm lugar de modo aleatório. Se bem que os padrões sejam incrivelmente mais complexos do que há algumas décadas atrás, o processo de migração continuou a ser bastante selectivo. Se conseguirmos fazer uma análise mais apurada das razões para esta selectividade, talvez possamos também antever movimentações futuras. Uma condicionante muito importante das migrações é a existência de redes de migração. Os migrantes vão-se mantendo em contacto com parentes e amigos no país de origem, o que frequentemente origina nova migração. A tecnologia moderna torna muito mais fácil do que anteriormente a manutenção de contactos, mesmo a grandes distâncias. Chamadas telefónicas baratas, bilhetes de avião de tarifa reduzida, vídeos, antenas parabólicas e a Internet facilitam o desenvolvimento das chamadas redes de comunicação transnacionais, espalhadas por dois ou, frequentemente, vários países diferentes. Informações sobre oportunidades de emprego e outras circulam também nestas redes de comunicação, o que certamente gera mais migração, tanto temporária como permanente. Redes de comunicação transnacionais poderosas não têm de constituir um obstáculo para a inserção das comunidades de imigrantes nos seus novos países. A maioria dos migrantes são perfeitamente capazes de lidarem com as exigências de diferentes culturas, o que poderá estimular o carácter multicultural de muitos países receptores de imigração. Uma segunda condicionante de importância é o fosso de desenvolvimento persistente entre os países pobres e os ricos. Este fosso, ao contrário de fechar-se, alargou-se nas últimas décadas. Muitos países em vias de desenvolvimento têm altas taxas de natalidade. Como consequência, o rendimento per capita cresce lentamente, o sistema educativo está sobrecarregado, e nem todos os que saem da escola conseguem arranjar empregos. Isto torna a emigração uma alternativa interessante para alguns. Contudo, a migração só terá lugar se houver para onde ir. Em alguns países há já uma procura de emprego que não tem resposta, apesar do número elevado de desempregados de longo prazo. Não é provável que os migrantes possam preencher estas vagas, ainda que isto venha a gerar um "fluxo de cérebros" do Sul para o Norte.

O imperativo de cooperação internacional

É lógico que exista pressão para migrar num mundo globalizante, no qual as oportunidades de indivíduo para indivíduo e de país para país diferem tão marcadamente. A razão por que os números de migrantes são ainda tão reduzidos tem a ver com o facto de as pessoas se sentirem mais felizes no seu meio de origem, um fenómeno que não se afigura como mutável. De qualquer modo, é quase imperativo que se desenvolvam melhores sistemas de canalização de futuros movimentos migratórios. Estes sistemas só poderão ser alcançados na cooperação de todas as partes envolvidas. É óbvio que o desenvolvimento económico, incluindo trocas comerciais mais abertas, é a melhor solução, mas esta é uma questão de longo prazo. O desenvolvimento também acarretará mais liberdade política e, consequentemente, menos refugiados. Entretanto, pode ser adoptado todo um conjunto de outras medidas, tais como melhor coordenação de políticas de imigração e combate aos traficantes de pessoas. Outras possibilidades incluem um apoio à integração mais funcional para os migrantes permanentes, melhores formas de protecção temporária para deslocados, prevenção de conflitos étnicos através de sistemas precoces de alerta, e acordos funcionais com países de origem em relação à migração de retorno. Os países desenvolvidos têm o seu capital e o seu conhecimento; os países em vias de desenvolvimento têm a sua população. O desafio para o século XXI será o de articular estes vectores de um modo que seja benéfico para todos.


*Han Entzinger
Professor de Ciências Sociais. Director do ERCOMER (Centro de Investigação Europeu em Migrações e Relações Étnicas) na Universidade de Utrecht. Holanda.

quinta-feira, outubro 19, 2006

O nosso "Way of Life"


O nosso ‘Way of Life’

“A diferença entre o ocidente e o resto reside no facto de as sociedades ocidentais serem governadas pela política; o resto é governado pelo poder”.

O terrorismo transnacional é uma realidade, realidade que urge entender e compreender sob o perigo de repetirmos erros de um passado recente ao tentar combate-lo.

A utilização da expressão combater tem um propósito, o combate pressupõe a existência de pelo menos 2 entidades físicas, contendores, em confronto. De um lado temos a ‘Civilização Ocidental’, do outro.....?

Para definir o ‘outro’, podemos seguir um de 3 caminhos:
- Seguir à risca o “Choque das Civilizações” de Samual P. Huntington, que nos presenteia com um choque entre a arrogância ocidental, a intolerância Islâmica e a afirmação chinesa ;
- A ameaça global da Al-Qaeda;
- A ameaça do terrorismo frainchising.

No primeiro caso, cai-se no erro perigoso da generalização, em que se toma as partes pelo todo. Não distinguir, por exemplo, o muçulmano sociológico do muçulmano praticante, e dentro destes o moderado do radical, é um exercício intelectual demagógico.

Nem tudo deve ser depreciado nesta obra, no capítulo referente às “Respostas ao Ocidente e à modernização”, apontam-se soluções pertinentes para os possíveis caminhos a percorrer na estabilização do próximo e médio-oriente. Tal caminho passa, a meu ver, por um equilibrio entre a modernização e a ocidentalização; por outras palavras, associar os benefícios da democracia aos benefícios do desenvolvimento sustentado.

O segundo caso peca por incutir no imaginário social que o fenómeno do terrorismo transnacional reside em algo chamado Al-Qaeda e que tem como personificação demoniaca o seu lider. Mas afinal o que é a Al-Qaeda?
Jason Burke no seu livro “Al-Qaeda, a história do islamismo radical”, explica bem todo este fenómeno.

Será a Al-Qaeda uma rede poderosa, fundada à mais de uma decada por um milionário saudita, que absorve milhares de membros espalhados pelas cidades ocidentais, à espera de entrar em acção às ordens do seu lider, dispostos a matar e a mutilar em nome de uma causa?
Felizmente esta ‘rede’ só existe no imaginário da opinião publica. Infelizmente fomos nós, ocidentais que a torná-mos tão poderosa, por sucessivas campanhas intoxicativas de desinformação, patrocinadas por politicos ocidentais e apadrinhadas pelos média. Afinal o que se ‘vendeu’ foi o sentimento generalizado de insegurança. As consequencias de tal acção serão por mim abordadas mais à frente.

Mas afinal o que é presentemente aquilo que chamamos Al-Qaeda?
A Al-Qaeda é efectivamente a ameaça, não sob a forma de organização com capacidade de comando, controle, comunicações (C3), mas uma ameaça sob a forma de doutrina e ponto de referência para o terrorismo frainchising. Afinal, qualquer pessoas se pode arrogar membro desta organização mesmo sem nunca ter tido contacto com ela, o sentimento de pertença não é grupal, é doutrinal.

A ameaça que enfrentamos é nova, é diferente. É assimétrica, complexa, diversificada, dinâmica, multiforme e extremamente difícil de caracterizar e para a qual não temos modelos de estudo e análise padronizados.

Mas afinal o que é que marca a diferença entre a 2996 vitimas do acto terrorista de 11 de Setembro e as 14121 vitimas de assassinato nos Estados Unidos durante o ano de 2004?

Pode tentar encontrar-se a resposta numa das muitas definições de acto terrorista existentes:
“Terrorism: the calculated use of unlawful violence or threat of unlawful violence to inculcate fear; intent to coerce or to intimidate governments or societies in the pursuit of goals that are generally political, religious, or ideological”.

De imediato ressaltam à vista 3 palavras: violência, ameaça e medo. Mas explicar o fenómeno somente com base nestas 3 palavras seria no mínimo redutor.

A brutalidade desnecessária do acto terrorista associando o número de vitimas a um acto único, o impacto das imagens, tudo isto ajuda a explicar o facto de 2996 ter mais impacto que 14121. A frieza do acto único e irracional (mas será que o assassinato também não o é?) sobrepoem-se à frieza dos números.

Mas o ‘end-state’ está presente, ao fim ao cabo coage-se e intimida-se uma sociedade inteira, criando nela a sensação de insegurança.

A percepção de falta de algo, associada ao instinto básico de preservação veio criar na sociedade ocidental a falsa sensação de necessidade de mais segurança. Ao fim ao cabo trata-se de criar primeiro a sensação de........ para depois a pessoa sentir a necessidade de colaborar com......

Nunca num passado mais ou menos recente se instalou a necessidade generalizada de trocar direitos e liberdades adquiridos por um modelo mais restritivo de segurança, que na prática tem resultado por uma postura assumida de troca dessas mesmas liberdades e privacidade por medidas redutoras das mesmas.

É chegada a altura de tomarmos consciência que não existem atentados inevitáveis. Temos definitivamente de aprender a viver com esse fenómeno. O terrorista tem a seu favor a iniciativa: escolhe o lugar, as circunstâncias temporais e o modo; a imprevisibilidade faz parte do ‘modus operandis’ do acto terrorista. A antecipação a cada atentado deve ser procurada na produção de inteligencia e no aprofundamento dos meios e técnicas de investigação . A coordenação entre Forças de Segurança, especialmente na área da inteligência necessita urgentemente de ser revisto.

Combater o terrorismo na fonte e não no alvo, porque ao faze-lo no alvo estamos automaticamente a actuar nos nossos direitos, liberdades e garantias, particularmente na nossa privacidade. Faze-lo no alvo é alterar o nosso ‘way of life’, é o inicio da substituição do estado democrático pelo estado policial.

Quando estivermos prontos a aceitar esta alteração comportamental e civilizacional, os terroristas ganharam a guerra.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Bem-vindos ao novo espaço de reflexão

O mundo é redondo e inteiro como um coração. E, quando partido em dois morre
in James Reston, Kissinger Farewell's Adress, The NewYork Times, 1976


No dizer de Manfred B. Steger, em A GLOBALIZAÇÃO, promovido pela Revista Sábado, em 2006, sugere o emprego do conceito "globalidade" para definir a "condição social caracterizada pela existência de interligações e fluxos globais ao nível económico, político, cultural e ambiental que tornam irrelevantes muitas das fronteiras e dos limites existentes", sem que tal signifique que o termo se refira a "um determinado ponto terminal que exclui qualquer posterior desenvolvimento". Distingue, assim, no âmbito da Globalização, a condição do processo, evitando a ocorrência daquilo a que chama definições circulares que exemplifica com a expressão "globalização (o processo) conduz a mais globalização (a condição)", que têm o condão de não permitir "fazer uma distinção analítica significativa entre causas e efeitos.
Neste contexto, GLOBALIDADES, para além de remeter para a multiplicidade de condições decorrentes, enformadoras e criadoras de GLOBALIZAÇÃO, operacionaliza o relacionamento dos factos do quotidiano com aquele processo. Atingir um ecletismo será sem dúvida um desígnio ideal. No entanto, atendendo aos perigos que a Globalização suscita e que certos fenómenos conexos confirmam, talvez seja mais prático e consensual a procura de uma perspectiva sincrética e subordinada a princípios humanitários já consagrados que conduzam à tal "globalização feliz".
Manfred B. Steger - A Globalização, Quasi edições, 2006

Blogotinha
Justiça
Macroscópio
marketeer500
O Jumento
Sobre o tempo que passa
Tomar Partido
Globalia
Tropicalidades
Trinos de Dissidência
Jornais/Revistas/TVs Nacionais
Strategic Foresight Group
Globalisation Institute
The Trilateral Commission
The Bilderberg Group - Invisible Power
Global Vision
Nações Unidas
UNICEF
laRepública
the Globalist - global understanding
Le Monde diplomatique
Le Monde Diplomatique (ed. bras.)
Le Monde
Economist
El Mundo
Finantial Times
International Herald Tribune
Newsweek
Technorati
Biografia do Pensamento Político
História do Presente